Algumas Observações sobre Clusters em Santa Catarina

Jörg Meyer-Stamer

Uma das principais características da economia catarinense é a forte presença de clusters. Um cluster é um pólo industrial com um forte grau de especialização; o exemplo do Brasil mais citado, na literatura internacional, é o polo da indústria de calçados femininos no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul (Schmitz 1995, 1998).

No estado de Santa Catarina, os casos mais óbvios são o cluster da indústria de roupa de cama, mesa e banho no Vale do Itajaí, o cluster de vestuário de malha, também no Vale do Itajaí e o cluster moveleiro de São Bento. Estes são clusters fortes, com um perfil de especialização muito claro, cujo peso econômico domina os respectivos municípios.

Outro cluster forte, mas com um peso não tão dominante na economia regional, é o cluster da cerâmica de revestimento na região de Criciúma. Há também o pólo eletro-metalmecânico de Joinville e Jaraguá do Sul.

Além disto, estão surgindo novos clusters na área de software em Florianópolis, Blumenau e Joinville, cada um com características distintas.

Falando de clusters, a fonte clássica é o Alfred Marshall, que há mais de um século tinha descrito o fenômeno do "Industrial District" – a aglomeração territorial de empresas do mesmo ramo, de ramo similar ou muito relacionado, onde mão-de-obra especializada, insumos e prestação de serviços estão facilmente disponíveis e as inovações tornam-se rapidamente conhecidas. Só que tal observação tinha sido esquecida, até que, na década de 80, veio a mensagem da Itália de que lá as respectivas estruturas tinham-se manifestado extremamente dinâmicas (Piore e Sabel, 1984; Pyke, Sengenberger e Becattini, 1990). Tal descoberta coincidiu com observações feitas em outras partes do mundo e em outras áreas. Geógrafos da economia nos Estados Unidos detectaram, no próprio país e em outros países da Europa, estruturas como aquelas que já tinham sido descritas por Marshall (Storper 1993, 1995).

O guru de administração de empresas, Michael Porter, publicou em 1990 "A Vantagem Competitiva das Nações" (Porter 1990), que, na verdade, trata de clusters bem sucedidos em vários países; e os clusters de Porter basicamente não diferem da publicação de Marshall, ou seja, são "Industrial Districts".

Voltando à experiência da Itália, alguns casos de "Industrial Districts" relatam uma experiência excepcional – em termos de dinamismo econômico e estruturas internas. Porém, estas histórias só trouxeram uma fotografia, e não um filme, ou seja, uma análise dinâmica da evolução de sistemas produtivos localizados. Desta forma, a análise traz uma imagem menos excepcional – tipos de evolução muito distintos, fortalecimento e também enfraquecimento de "Industrial Districts", processos de concentração, e até crises profundas (Brusco 1996). Além disto, é evidente que há mais casos de sistemas produtivos localizados com um alto nível de especialização a relatar. Destas análises surgem várias observações gerais, que também se aplicam à experiência catarinense. Pode-se sintetizar que há quatro observações principais:

  1. Há uma diferença importante entre vantagens passivas e ativas.
  2. A mobilização de vantagens ativas é muito difícil.
  3. A integração em cadeias internacionais de valores tem um impacto muito importante sobre as estruturas internas de um cluster.
  4. As condições macroeconômicas e macropolíticas têm um efeito forte sobre as estruturas internas de um cluster.

Vantagens ativas e passivas

O ponto de partida é a observação de que um cluster oferece grande potencial para a criação de vantagens competitivas, mesmo sem a intervenção do Governo ou de outros atores, resultando numa série de vantagens de localização; Nadvi (1997) chama isto de "vantagens passivas". Tomemos, por exemplo, uma cidade em que há uma gama de empresas moveleiras. Aqui é relativamente fácil encontrar mão-de-obra qualificada e com experiência. Não é difícil encontrar produtos semi-acabados e máquinas. E mesmo as vendas são mais fáceis de serem realizadas do que em outro lugar, pois os fregueses, por si, freqüentam a cidade, sabendo que aqui encontram grande variedade de oferta. A rivalidade entre as empresas é marcante, de forma que é grande a pressão para aumentar a competitividade.

Ao mesmo tempo – especialmente nos "Industrial Districts" italianos – é comum a cooperação entre as empresas, e isso tanto ao longo da cadeia de valor, quanto horizontalmente; segredos empresariais raras vezes se mantém confidenciais por muito tempo. Condições de entrega e outras formas de cooperação entre empresas, muitas vezes, são regulamentadas de modo informal. O capital social cria a condição para as relações confidenciais e ao mesmo tempo coloca à disposição possibilidades para se tomar medidas de emergência contra um procedimento oportunista.

Além disso, são criadas vantagens de localização através de ação coletiva ou governamental – p.ex., uma escola técnica, um laboratório de provas de material e certificação, uma agência de informações do comércio exterior, e outros mais. Dessa forma, é possível desenvolver uma vantagem de localização, que em outro lugar dificilmente poderia ser compensada, fornecendo à empresa local permanentes vantagens de competitividade. Trata-se de uma vantagem "ativa".

Olhando para os clusters catarinenses, percebe-se relativamente pouco esforço para criar vantagens ativas. O "case" mais expressivo, na década de 90, foi o do cluster cerâmico de Criciúma. As empresas não só são muito envolvidas em associações empresariais (como o sindicato e a Anfacer, a Associação Nacional do setor), mas também conseguiram a criação do Centro de Tecnologia em Cerâmica e de um curso de tecnólogo na universidade regional. Nos outros clusters, não há experiências deste tipo. A Fundação Blumenauense de Estudos Têxteis, criada na década de 60, até hoje só atende as empresas afiliadas e evoluiu de uma maneira pouco expressiva. As empresas moveleiras de São Bento do Sul criaram, em 1975, a FETEP como centro tecnológico e de formação, mas deixaram-na entrar em decadência no final da década de 80 e início da década de 90. Os empresários de Jaraguá do Sul, embora sendo muito ativos em atividades comunitárias através da Associação Comercial e Industrial, não conseguiram criar uma estrutura de suporte adequada às necessidades nas áreas de formação profissional, ensino superior e tecnologia.

Obstáculos à criação de vantagens ativas

As observações que seguem referem-se ao segundo ponto assinalado acima, de que é muito complicado a criação de vantagens ativas num cluster com pouca tradição de cooperação e ação coletiva. Esta observação não bate com as experiências da Itália, e também não é compatível com uma visão teórica baseada na economia institucional. Nesta visão, as vantagens de cooperação em termos de redução de custos de transação (por exemplo, em termos de menos necessidade de controle minucioso de fornecimentos) e resolução de problemas tipo Principal-Agent ( no que diz respeito à orientação de centros de formação profissional) são óbvias. Porém, de uma outra perspectiva teórica, não se trata de uma surpresa. Dentro de uma conceitualização baseada na teoria de jogos, é óbvio que um jogo cooperativo como também um jogo não cooperativo têm uma alta estabilidade. Baseado em experimentos, sabe-se que, tipicamente, em jogos do dilema de prisioneiros repetidos surge cooperação (Axelrod 1984). Porém, dentro de um cluster é mais provável que ocorra um jogo não cooperativo, e isso por duas razões. Primeiro, o que é igual para todos os clusters, o relacionamento entre empresas, ou, melhor dizendo, entre empresários, é marcado por concorrência. Assim, são necessários certos elementos não econômicos, como uma sócio-cultura local, que permitem superar esta orientação; aí está uma das razões principais da experiência italiana. A outra razão tem a ver com um aspecto específico da experiência brasileira: pelo menos nos últimos 20 anos não havia jogos repetidos. O governo mudou com tanta freqüência as regras de jogo que cada negociação era algo novo, sem precedentes.

Então, é pouco provável que um cluster não cooperativo evolua facilmente para um alto nível de cooperação. A experiência de Criciúma é instrutiva neste sentido: a cooperação entre empresas surgiu no início da década de 90 como resultado de uma crise muita profunda, que não permitiu manter o velho modelo predatório e não colaborativo. Um outro aspecto também foi favorável: a convivência com as estruturas existentes em Sassuolo (Itália) e Castellón (Espanha), os principais clusters no mundo neste setor, onde há uma experiência forte de colaboração e ação coletiva. Nenhum destes dois fatores se aplicam aos outros clusters catarinenses, e até em Criciúma, depois de conseguir os principais alvos da ação coletiva (cursos avançados, Centro Tecnológico, gás natural) a cooperação entre empresas diminuiu significativamente.

Integração em cadeias internacionais

Um fator adicional que pode complicar a ação local é a maneira como um cluster é integrado em cadeias internacionais. Raramente um cluster fornece para um mercado internacional anônimo. De fato, este tipo de comércio internacional é cada vez mais raro, e hoje envolve principalmente produtos agrícolas e minerais padronizados, como soja ou cobre. O que prevalece é o comércio internacional dentro de empresas, que tem uma participação em torno de 50% do comércio internacional, e o comércio dentro de cadeias internacionais. Em muitos setores, principalmente aqueles de produtos menos complexos, como sapatos, vestuário ou móveis, são empresas nos países avançados que estão definindo as regras do jogo (Gereffi 1996).

No que diz respeito aos clusters catarinenses, este fato é expressivo no caso do cluster moveleiro de São Bento do Sul. A grande maioria das empresas são integradas de uma maneira passiva em cadeias internacionais, dominadas por tradings e grandes cadeias de varejo na Europa e nos EE.UU., que mandam não só pedidos, mas também os designs. É freqüente o caso destes clientes criarem um leilão entre potenciais fornecedores dentro do cluster, contratando aquele com o preço mais baixo. Também houve casos nos quais, depois do leilão, uma outra empresa ofereceu um preço ainda mais baixo e recebeu o contrato. Assim, fortaleceu-se, através do comportamento dos compradores estrangeiros, uma cultura não cooperativa, que já era muito forte no local.

Condições macroeconômicas e macropolíticas

É obvio que o desempenho de um cluster depende das condições macroeconômicas e macropolíticas. Porém, há neste sentido observações que não são triviais. Primeiro, o sistema de tributos no Brasil cria obstáculos à desverticalização e com isso desestimula o principal mecanismo de colaboração entre empresas. Como há certos tributos em cascata, em muitos casos não faz sentido, economicamente, desverticalizar. Um segundo elemento é a prática de mudanças freqüentes nas regras do jogo, que já foi mencionado. Terceiro, a velha prática de "ir a Brasília" para buscar soluções de problemas cria uma cultura local pouco propiciadora às iniciativas locais. Quarto, para uma empresa é praticamente impossível respeitar todas as leis, inclusive porque algumas são contraditórias. Este fato cria um senso de vulnerabilidade e faz com que um empresário prefira não abrir a empresa para possíveis concorrentes, um fato que complica muito as atividades conjuntas em áreas como colaboração tecnológica.

Perspectivas

A partir daí conclui-se ser pouco provável que no futuro próximo clusters em Santa Catarina desenvolverão o grau de colaboração e ação coletiva que parece ser comum nos "Industrial Districts" da Itália. Iniciativas nesta direção, independente da entidade que as perseguem, enfrentarão grandes obstáculos.

Porém, não se pode subestimar as vantagens competitivas baseadas em vantagens passivas. Neste sentido, sem dúvida, os clusters em Santa Catarina ainda usufruem de um grande potencial. Como mostra a experiência da indústria de vestuário de malha no Vale do Itajaí, até com um esforço coletivo muito modesto, tipicamente baseado em iniciativas individuais de instituições de suporte, e um nível de colaboração quase inexistente, é possível passar por um processo de restruturação de uma maneira relativamente tranqüila, seguindo para um novo modelo de competitividade, agora muito mais baseado em empresas de pequeno e médio porte que replicam fortemente a disposição não cooperativa antigamente mostrada pelas grandes empresas do setor. Neste sentido, a presença de clusters é um elemento muito forte na economia catarinense.

Bibliografia

Axelrod, R. (1984). The Evolution of Cooperation. New York: Basic Books.

Brusco, Sebastiano, et al. (1996). The evolution of industrial districts in Emilia-Romagna. In: Cossentino, Francesco, Pyke, Frank, Sengenberger, Werner. Local and regional response to global pressure: The case of Italy and its industrial districts. Geneva: International Institute for Labour Studies. p. 17-36. (Research Series, 103.)

Gereffi, Gary (1996). Global Commodity Chains: New Forms of Coordination and Control Among Nations and Firms in International Industries. Competition and Change, vol. 4, p. 427-39.

Meyer-Stamer, Jörg (1998). Path dependence in regional development: persistence and change in three industrial clusters in Santa Catarina, Brazil. World Development, v. 26, 1998, n. 8, p. 1495-1511. (<a href="http://home.t-online.de/home/meyer-stamer/1998 /path.pdf">

Meyer-Stamer, Jörg (1999). Participatory Appraisal of Competitive Advantage (PACA). A Methodology to Support Local and Regional Development Strategy Initiatives, based on the Systemic Competitiveness Concept. Revised draft (<a href="http://home.t-online.de/home/meyer-stamer/1999/paca2.pdf">

Nadvi, Khalid (1997). The Cutting Edge: Collective Efficiency and International Competitiveness in Pakistan. Brighton: Institute of Development Studies (Discussion Paper, 360).

Piore, Michael J., & Sabel, Charles F. (1984). The Second Industrial Divide. Possibilities for Prosperity. New York: Basic Books.

Porter, Michael E. (1990). The Competitive Advantage of Nations. New York: The Free Press.

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Storper, Michael (1995). The Resurgence of Regional Economies, Ten Years Later: The Region as a Nexus of Untraded Interdependencies. European Urban and Regional Studies, Vol. 2, No. 3, pp. 191-221.